mothernidade

29 nov

Do verbo esperar: Eu espero. Tu esperas. Ele espera. Era uma menina de oito anos que esperou pelo papai Noel nos 24 de dezembro de 1988. Naquele mesmo ano a mãe decidiu deixar o ano velho e suas velhas mentiras.

 A verdade é que a mãe esperava também, pelo meu pai que não apareceu. E tudo bem, sabe? Eu sei que a vida nos dá  razões para sumir. Um sujeito que anda pelo mundo tropeça e em vários momentos cai. Não adianta só ficar puto com isso. O próprio instinto de sobrevivência nos faz interagir com as circunstâncias e fazer o que damos conta. Só agora rumo aos trinta parei de fazer pirraça e sem drama aceitar as marcas que me fazem parte. Esses registros que reunidos esboçam o universo de cada um. Viver é como adicionar esses registros de passagem. Uma alma sem marcas nunca foi tocada, explorada, ampliada.

Do verbo esperar: Eu ainda estou aqui e enquanto espero penso umas coisas idiotas como, “serei incapaz de esquecer”. Claro, principalmente se o objetivo for deslembrar. Eu sei que algumas pessoas impregnam na pele.  São como bebidas que aceleram a circulação e aquecem o sangue. Tento manter sóbria a razão, mas só acordo depois daquele homem deslizar nos meus pensamentos com afiadas lâminas. Movimentos e traços completamente incoerentes e perfeitos. Um balé rápido, preciso e encantador. Fico fora e inteiramente confusa. É uma mistura disto com o apetite que me leva a pegar outra cerveja no balcão. E aí por acaso, sua frieza me lança estupidamente a kilômetros enquanto eu sou potencialmente atraída por um só desvio de olhar. Isso me arrebenta. Tive que escolher.

Do verbo esperar: natal de 89 e a menina se fantasiou de papai Noel, passou com notas boas na escola para garantir o presente de final do ano com a mãe, que não se preparou para esperar ninguém e ensinou isso a filha.

E este é o fim de quem não tem vocação para morrer de amor.

fácil

7 nov

 - é igual biscoito filha… ele é igualzinho biscoito.
- hum?!
- iguais a ele tem dezoito.
- mãe, mas ele não é um biscoito qualquer. é um biscoitinho especial, com um gosto só dele, um doce específico que não tem em outros biscoitos. não existe outro. assim como T. é um biscoito único. o D. também é um biscoito especial. e …
- então faz um pacotinho de biscoitos pra você, filha.

beijo.

isso muda tudo

2 out

por que o senhor escreve, velho escritor?

pra preencher o vazio. quando você morre, acontece alguma coisa naqueles que ficam. um vazio. e se você não escreve nada quando, não dá chance desse vazio ser preenchido. e tem que publicar. outro dia encontrei um caderno do meu filho morto num acidente. não tive coragem de ler. abri, mas não li. essa senha não me foi dada, portanto não me acho no direito de utilizá-la.  gostaria de ler, ao mesmo tempo, não tenho coragem. me deu um frio na barriga como se estivesse roubando um banco quando as luzes apontavam para a padaria. nem sequer um cachorro para me espreitar. no escuro a consciência me congelou. tive medo de me perder e falta de ar. parei, chorei e fui para a padaria. nesse lampejo, encontrei meu filho criança tomando sorvete de baunilha. se sonho tivesse cheiro seria das folhas amarelas do carderno, preenchidas à mão. fechei o caderno e agora cumpro minha sentença pelo meu crime que quase cometi. escrevo porque preciso. não há nada de errado com a morte. as pessoas morrem. mas é difícil. endeusamos todos nossos mortos. escrevo porque tenho medo de morrer. e quando isso acontecer quero ter deixado minhas homenagens para todos aqueles que amo. são muitos. a vida é uma história e tanto. aproveitem.

calenza

 

ainda não cansei

25 fev

eu cansei das medidas, das desmedidas, dos cálculos, dos descálculos, das possibilidades, das condutas, da fala prudente, do tempo certo, do instante correto, da contenção. pra chegar até você eu faço o trajeto duas vezes, três, vou de novo, quatro, insisto, não desisto, admito, confesso, rezo, declarando toda a fraqueza, toda a franqueza, toda a certeza. ai de quem não rasga o coração, de quem tem medo de ir além, de quem tem medo somente, eu vou, eu vou, eu continuo indo, até não querer mais, até gastar todo o meu desejo de te encontrar, de te ver, sem pensar em como deveria agir ou como não deveria, ninguém me governa, ninguém me segura, eu sigo, eu peço, eu digo, e se for pra te perder que eu te perca direito, que eu me perca de mim. mas não será por falta de tentativa, nem por anestesia, nem por apatia. está declarado aqui, hoje, agora e sempre, vou contigo até perder de vista, de olhos fechados, de mãos dadas, de braços dados, de abraços, de vez.

julia branco.

nada é para sempre

25 jan

“Não sinto nada mais ou menos, ou eu gosto ou não gosto. Não sei sentir em doses homeopáticas. Preciso e gosto de intensidade, mesmo que ela seja ilusória e se não for assim, prefiro que não seja. Não me apetece viver histórias medíocres, paixões não correspondidas e pessoas água com açúcar. Não sei brincar e ser café com leite. Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma, que tenha coragem suficiente pra me dizer o que sente antes, durante e depois ou que invente boas estórias caso não possa vivê-las. Porque eu acho sempre muitas coisas – porque tenho uma mente fértil e delirante – e porque posso achar errado – e ter que me desculpar – e detesto pedir desculpas embora o faça sem dificuldade se me provarem que eu estraguei tudo achando o que não devia. Quero grandes histórias e estórias; quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que nada é para sempre.”

Gabriel García Márquez


Amei isso

11 jan

Não é a primeira vez

que a felicidade vem.

É a primeira vez que traz a escova de dentes.

suponhamos

24 nov

“Suponhamos que eu seja uma criatura forte, o que não é verdade. Suponhamos que ao tomar uma resolução eu a mantenha, o que não é verdade. Suponhamos que eu escreva um dia alguma coisa que desnude um pouco a alma humana, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha sempre o rosto sério que vislumbro de repente no espelho ao lavar as mãos, o que não é verdade. Suponhamos que as pessoas que eu amo sejam felizes, o que não é verdade. Suponhamos que eu tenha menos defeitos graves do que tenho, o que não é verdade. Suponhamos que baste uma flor bonita para me deixar iluminada, o que não é verdade. Suponhamos que eu esteja sorrindo logo hoje que não é dia de eu sorrir, o que não é verdade. Suponhamos que entre os meus defeitos haja muitas qualidades, o que não é verdade. Suponhamos que eu nunca minta, o que não é verdade. Suponhamos que um dia eu possa ser outra pessoa e mude de modo de ser, o que não é verdade.”
Clarice Lispector, in Supondo o Errado

(re)pensando

22 nov

“foi pra repensar a luz, que precisei de muitos quartos escuros”

rodrigo faria e silva

e aí….

“Liberdade? é o meu ultimo refúgio, forcei-me à liberdade e agüento-a não como um dom, mas com heroísmo: sou heroicamente livre.”

Clarice Lispector

e muito sem querer de novo e outra vez…

“… quando te vi pela primeira vez sem jeito de repente te vi assim como se não fosse ver nunca mais e seria bom que eu não tivesse visto nunca mais porque de repente vi outra vez e outra e outra e enquanto eu te via nascia um jardim nas minhas faces …”

Caio Fernando Abreu

muito verdadeiro pra mim:

”O importante é termos a capacidade de sacrificar aquilo que somos para ser aquilo que podemos ser.”

Charles Dubois

“Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. [...] Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e becos de mim.”

Caio Fernando Abreu

“Frágil – você tem tanta vontade de chorar, tanta vontade de ir embora. Para que o protejam, para que sintam falta. Tanta vontade de viajar para bem longe, romper todos os laços, sem deixar endereço. Um dia mandará um cartão-postal de algum lugar improvável. Bali, Madagascar, Sumatra. Escreverá: penso em você. Deve ser bonito, mesmo melancólico, alguém que se foi pensar em você num lugar improvável como esse. Você se comove com o que não acontece, você sente frio e medo. Parado atrás da vidraça, olhando a chuva que, aos poucos, começa a passar.”

Caio Fernando Abreu

 

mais dois

10 nov

“Nasci para amar os outros – diria ela – e para escrever. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

Clarice, a Lispector

“Tudo isso dói. Mas eu sei que passa, que se está sendo assim é porque deve ser assim, e virá outro ciclo, depois. Para me dar força, escrevi no espelho do meu quarto: ‘Tá certo que o sonho acabou, mas também não precisa virar pesadelo, não é?’ É o que estou tentando vivenciar. Certo, muitas ilusões dançaram – mas eu me recuso a descrer absolutamente de tudo, eu faço força para manter algumas esperanças acesas, como velas. Também não quero dramatizar e fazer dos problemas reais monstros insolúveis, becos-sem-saída. Nada é muito terrível. Só viver, não é? A barra mesmo é ter que estar vivo e ter que desdobrar, batalhar um jeito qualquer de ficar numa boa. O meu tem sido olhar pra dentro, devagar, ter muito cuidado com cada palavra, com cada movimento, com cada coisa que me ligue ao de fora. Até que os dois ritmos naturalmente se encaixem outra vez e passem a fluir. Porque não estou fluindo.”

Caio Fernando, o phoda, Abreu

 

eu entro nesse barco

5 nov

“Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou (…). Eu abandono histórias, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia (…). Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena. Remar. Re-amar. Amar”.

Caio Fernando Abreu

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