Do verbo esperar: Eu espero. Tu esperas. Ele espera. Era uma menina de oito anos que esperou pelo papai Noel nos 24 de dezembro de 1988. Naquele mesmo ano a mãe decidiu deixar o ano velho e suas velhas mentiras.
A verdade é que a mãe esperava também, pelo meu pai que não apareceu. E tudo bem, sabe? Eu sei que a vida nos dá razões para sumir. Um sujeito que anda pelo mundo tropeça e em vários momentos cai. Não adianta só ficar puto com isso. O próprio instinto de sobrevivência nos faz interagir com as circunstâncias e fazer o que damos conta. Só agora rumo aos trinta parei de fazer pirraça e sem drama aceitar as marcas que me fazem parte. Esses registros que reunidos esboçam o universo de cada um. Viver é como adicionar esses registros de passagem. Uma alma sem marcas nunca foi tocada, explorada, ampliada.
Do verbo esperar: Eu ainda estou aqui e enquanto espero penso umas coisas idiotas como, “serei incapaz de esquecer”. Claro, principalmente se o objetivo for deslembrar. Eu sei que algumas pessoas impregnam na pele. São como bebidas que aceleram a circulação e aquecem o sangue. Tento manter sóbria a razão, mas só acordo depois daquele homem deslizar nos meus pensamentos com afiadas lâminas. Movimentos e traços completamente incoerentes e perfeitos. Um balé rápido, preciso e encantador. Fico fora e inteiramente confusa. É uma mistura disto com o apetite que me leva a pegar outra cerveja no balcão. E aí por acaso, sua frieza me lança estupidamente a kilômetros enquanto eu sou potencialmente atraída por um só desvio de olhar. Isso me arrebenta. Tive que escolher.
Do verbo esperar: natal de 89 e a menina se fantasiou de papai Noel, passou com notas boas na escola para garantir o presente de final do ano com a mãe, que não se preparou para esperar ninguém e ensinou isso a filha.
E este é o fim de quem não tem vocação para morrer de amor.
